Módulo II Psicologia

Disciplina: Psicologia da Educação I
Professora: Leila Jane de Souza Santos Fortes
Coordenador(a): Patrícia Salvador Segura
Título: Psicologia da Educação I

Descrição: Módulo I

Personalidade

Carl Gustav Jung

Dentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de introversão e extroversão são as mais usadas. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo.
Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras ocasiões a extroversão é mais adequada mas, as duas atitudes se excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao mesmo tempo. Também enfatizava que nenhuma das duas é melhor que a outra, citando que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquanto Kant era introvertido por excelência.
O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre as duas.

As Atitudes: Introversão e Extroversão
Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.
Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.

As Funções Psíquicas
Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira introvertida quanto extrovertida.

O Pensamento
Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O Pensamento, por sua vez, está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a função do Pensamento são chamadas de Reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditória evidência.

O Sentimento
Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência. Eles preferem emoções fortes e intensas ainda que negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência e princípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa sentimental. Para ela, tomar decisões deve ser de acordo com julgamentos de valores próprios, como por exemplo, valores do bom ou do mau, do certo ou do errado, agradável ou desagradável, ao invés de julgar em termos de lógica ou eficiência, como faz o reflexivo.

A Sensação
Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência.
Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.

A Intuição
A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o que é possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma. Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via de regra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos dados sensoriais brutos obtidos. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada com as informações relevantes da experiência imediata.

A Persona
Nossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, se refere às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar significado aos papéis que estavam representando. As palavras "pessoa" e "personalidade" também estão relacionadas a este termo.
A Persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua Persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Jung chamou também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a Persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A Persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as atitudes do papel que cada ator estava representando. A Persona pode, com freqüência, desempenhar um papel importante em nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso Ego se altera gradualmente nessa direção.
Entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e símbolos de status (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram todos encontrados em sonhos como representações da Persona. Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte pode aparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um excesso de roupas. Uma pessoa com Persona fraca poderia aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma Persona extremamente inadequada seria o fato de não ter pele.

Ballone GJ - Carl Gustav Jung, in. PsiqWeb, internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005
* - baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980 para saber mais: Tipos Psicológicos - C.G.Jung - Zahar Editores - RJ - 1980

Teoria da Personalidade
As teorias, discussões e controvérsias sobre a Personalidade foram temas sempre presentes em toda história da filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e medicina geral. Entre tantas tendências destaca-se um tronco ideológico segundo o qual os seres humanos foram criados iguais quanto sua capacidade potencial. Neste caso, a ocorrência das diferenças individuais seria interpretada como uma decisiva influência ambiental sobre o desenvolvimento da Personalidade.
De acordo com tal enfoque, havendo no mundo uma hipotética igualdade de oportunidades, seríamos todos iguais quanto as nossas realizações, já que, potencialmente seríamos iguais. Assim pensando, se a todos fossem dadas oportunidades iguais, como por exemplo, oportunidade musical ou artística, seria impossível destacar-se um Chopin, Mozart, Monet, Rembrandt, porque a potencialidade de todos seus colegas de classe seria a mesma. A única diferença entre Einstein e os demais teria sido uma simples questão de oportunidade e circunstâncias ambientais. Neste caso a Personalidade, a inteligência, a vocação e a própria doença mental seriam questões exclusivamente ambientais.
A idéia de buscar fora da pessoa os elementos que explicassem seu comportamento a sua desenvoltura vivencial teve ênfase com as teorias de Rousseau, segundo o qual era a sociedade quem corrompia o homem. Subestimou-se a possibilidade da sociedade refletir, exatamente, a totalidade das tendências humanas. Seres humanos que trazem em si um potencial corruptor o qual, agindo sobre outros indivíduos sujeito à corrupção, produzem um efeito corruptível. Ou seja, trata-se de um demérito tipicamente humano.
Outra concepção acerca da Personalidade foi baseada na constituição biotipológica, segundo a qual a genética não estaria limitada exclusivamente à cor dos olhos, dos cabelos, da pele, à estatura, aos distúrbios metabólicos e, às vezes, às malformações físicas, mas também, determinaria às peculiares maneiras do indivíduo relacionar-se com o mundo: seu temperamento, seus traços afetivos, etc.
As considerações extremadas neste sentido descartam qualquer possibilidade de influência do meio sobre o desenvolvimento e desempenho da Personalidade e atribui aos arranjos sinápticos e genéticos a explicação de todas as características da Personalidade.
Buscando um meio termo, como apelo ao bom senso, pode-se considerar a totalidade do ser humano como sendo um balanço entre duas porções que se conjugam de forma a produzir a pessoa tal como é:
1- uma natureza biológica, tendo por base nossa natural submissão ao reino animal e às leis da biologia, da genética e dos instintos. Assim sendo, os genes herdados se apresentam como possibilidades variáveis de desenvolvimento em contacto com o meio (e não como certeza inexorável de desenvolvimento);
2- uma natureza existencial, suprabiológica conferindo à Personalidade elementos que transcendem o animal que repousa em nós. A pessoa, ser único e individual, distinto de todos outros indivíduos de sua espécie, traduz a essência de uma peculiar combinação bio-psico-social.

Desta forma, a definição de Personalidade poderia ser esboçada da seguinte maneira:
"PERSONALIDADE É A ORGANIZAÇÃO DINÂMICA DOS TRAÇOS NO INTERIOR DO EU, FORMADOS A PARTIR DOS GENES PARTICULARES QUE HERDAMOS, DAS EXISTÊNCIAS SINGULARES QUE EXPERIMENTAMOS E DAS PERCEPÇÕES INDIVIDUAIS QUE TEMOS DO MUNDO, CAPAZES DE TORNAR CADA INDIVÍDUO ÚNICO EM SUA MANEIRA DE SER, DE SENTIR E DE DESEMPENHAR O SEU PAPEL SOCIAL".
Dessa forma, o ser humano não pode ser considerado como um produto exclusivo de seu meio, tal como um aglomerado dos reflexos condicionados pela cultura que o rodeia e despido de qualquer elã mais nobre de sentimentos e vontade própria. Não pode, tampouco, ser considerado um punhado de genes, resultando numa máquina programada a agir desta ou daquela maneira, conforme teriam agido exatamente os seus ascendentes biológicos.
Se assim fosse, o ser humano passaria pela vida incólume aos diversos efeitos e conseqüências de suas vivências pessoais. Sensatamente, o ser humano não deve ser considerado nem exclusivamente ambiente, nem exclusivamente herança, antes disso, uma combinação destes dois elementos em proporções completamente insuspeitadas.
Todas as vezes que colocamos lado a lado duas pessoas estabelecendo comparações entre elas, qualquer que seja o aspecto a ser medido e comparado, verificamos sempre a existência de diferenças entre ambas. Constatamos assim, as diferenças entre os indivíduos, as peculiaridades que os tornam únicos e inimitáveis.
Por outro lado, podemos verificar também e paradoxalmente, outras características comuns a todos os seres humanos, tal como uma espécie de marca registrada de nossa espécie. Desta feita, há elementos comuns e capazes de nos identificar todos como pertencentes a uma mesma espécie, portanto, característicos da natureza humana e, a par destes elementos humanos próprios, outros atributos capazes de diferenciar um ser humano de todos os demais.
Para demonstrar didaticamente este duplo aspecto da constituição humana imaginemos, por exemplo, um enorme canteiro de rosas amarelas. Embora todos os indivíduos do canteiro tenham características comuns e suficiente para ser considerados e identificados como rosas amarelas, será praticamente impossível encontrar, entre eles, dois exemplares exatamente iguais. Portanto, apesar de todos esses indivíduos possuírem traços individuais, tais como, perfume, pétalas e espinhos, cada um deles tem suas características individuais, mais perfume, pétalas de tonalidade diferente e espinhos mais realçados...
No ser humano normal também pode se encontrar características universais, como por exemplo, a angústia, a ambição, o amor, o ódio, o ciúme, etc. Entretanto, em cada um de nós estes traços combinar-se-ão de maneira completamente singular.
Podemos afirmar que os seres humanos são essencialmente iguais e funcionalmente diferentes, ou seja, podemos nos considerar iguais uns aos outros quanto à nossa essência humana (ontologicamente), entretanto, funcionamos diferentemente uns dos outros. Todas as tendências ideológicas que enfatizam a igualdade dos seres humanos, num total descaso para com as diferenças funcionais, ecoam aos ouvidos despreparados com eloqüente beleza retórica, romântica, ética e moral, porém, falsas.
As teorias sobre igualdade plena entre seres humanos, sem que se reconheçam as diferenças funcionais sucumbem diante de incontáveis evidências em contrário: não resistem à constatação das flagrantes e involuntárias diferenças entre os indivíduos, bem como não explicam a indomável característica humana que é a perene vocação das pessoas em querer destacarem-se dos demais.
Personalidade: Ambiente ou Genética?
Há em biologia uma fórmula muito significativa e de validade indiscutível: FENÓTIPO = GENÓTIPO + AMBIENTE. Entende-se por Fenótipo o estado atual no qual se encontra o indivíduo aqui e agora, por Genótipo entende-se seu patrimônio genético e, em nosso caso, por Ambiente nos referimos às influências do destino sobre o desenvolvimento do ser.
De maneira geral, o estado em que se apresenta o indivíduo num dado momento deve ser entendido como uma conjugação entre seu patrimônio genético e a influência ambiental a que se submeteu. Em outras palavras, uma somatória daquilo que ele trouxe para a vida com aquilo que a vida lhe deu. Podemos assim, considerar a Personalidade como sendo composta de elementos constitucionais ou genotípicos e de elemento ambientais ou paratípicos. O resultado final do indivíduo, tal como se encontra no momento atual, será o seu fenótipo.
A discussão acerca da preponderância de elementos ambientais ou constitucionais na gênese da Personalidade é antiga, acirrada, infindável e inconclusiva. A tendência moderna e Politicamente Correta seria entender a pessoa como um resultado de influência preponderantemente ambiental, mas como o Politicamente Correto sempre se caracteriza por acentuada demagogia, melhor seria uma concepção mais sensata.
A ciência médica, acostumada que está a considerar relacionamentos causais para os fenômenos que estuda, sente-se incomodada quando alguma tendência sociogênica atribui à delinqüência, por exemplo, um reflexo direto da pobreza (ambiental). Fosse assim, pelo menos em nosso meio a delinqüência seria, no mínimo, milhares de vezes mais presente. É por causa de idéias assim que a sociedade reluta em entender a Depressão como um estado não necessariamente associado a alguma coisa má que tenha acontecido para a pessoa deprimida. A medicina psiquiátrica incomoda-se também diante de afirmações organogênicas sobre a inexorabilidade do comportamento agressivo como conseqüência irredutível de um bracinho longo de determinado cromossomo.
Como se vê, atualmente o mais sensato seria admitir uma natureza bio-psico-social para como origem da Personalidade e o peso com que cada qual desses elementos participam na maneira como a pessoa É hoje, aqui e agora, será extremamente variável e individual.
Sugestão Bibliográfica
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O SOFRIMENTO NO TRABALHO
José Clerton de Oliveira Martins
UNIFOR

INTRODUÇÃO

O homem, sujeito trabalhador, encontra-se em meio à conjuntura atual em que se desenvolvem as estruturas de trabalho perpassadas pela angústia e pelo medo, tudo isso desembocando em uma vivência de sofrimento. Tendo em vista que, a atual organização do trabalho impõe ao indivíduo condições de realização das suas tarefas cotidianas, algumas que não se apresentam ergonomicamente adequadas, e/ou ainda, o caráter de instabilidade, gerado pela escassez de oferta de emprego que acarreta competitividade, aceleração na realização das atividades, busca constante de alta produtividade, lucratividade, bom desempenho empresarial, etc.
Tudo isso, possibilita um clima tenso que acentua o acirramento das relações interpessoais, de concorrência dentro e fora da organização. Ou seja, o meu concorrente não é apenas uma organização que está no mercado que é do mesmo ramo, mas o meu colega de trabalho transforma-se em um concorrente em potencial, pela própria dinâmica do contexto global e dos valores disseminados em tais entornos.
O sofrimento propiciado no contexto do trabalho, pode ser decorrente ainda de uma incompatibilidade entre a história individual do sujeito, perpassada por sonhos, desejos, necessidades, projetos, esperanças, e uma organização do trabalho que ignora isso. Desencadeando-se, nesse caso, o sofrimento psíquico pelo fato de o homem no seu trabalho se perceber impossibilitado de empreender modificações, alterações na atividade que realiza, tendo em vista torná-la mais adequada às suas necessidades fisiológicas e a seus desejos psicológicos, isto é, quando o trabalho se torna completamente alheio a quem o executa.
Logo, essa relação entre homem e trabalho não mais irá se apresentar como uma via de influência de mão dupla, em mesma intensidade. Ou seja, a influência que o homem tem sobre o seu trabalho não repercute no mesmo igualmente como as exigências deste trabalho ‘tocam’ esse sujeito. O homem diminuiu a sua liberdade de criação e de realização diante do trabalho que exerce. A imposição existente sobre o homem, construída pelas relações de trabalho, em tal perspectiva, incutem no sujeito marcas indeléveis, as quais vão repercutir no seu funcionamento físico e psíquico.
A maneira como o sofrimento desencadeia-se vai ser diretamente dependente do tipo de organização de trabalho. Por exemplo, o grau ou intensidade de insatisfação ou medo de um funcionário submetido a um trabalho repetitivo vai ser diferente do observado em um funcionário de escritório. Modificando-se também de acordo com as normas, regras, regimentos internos de cada empresa, bem como, com o clima organizacional que influencia as relações interpessoais que predomina na organização. Assim torna-se necessário ser cauteloso ao se fazer certas generalizações, por isso que a observação cuidadosa do ambiente organizacional com todas as suas especificidades se faz tão relevante.
Os indivíduos, quando diante de uma situação de angústia e insatisfação decorrente de seu trabalho, elaboram estratégias de defesa que acabam por tornar o sofrimento um aspecto velado. Logo, o sofrimento disfarçado encontrará como meio de eclodir uma sintomatologia, a qual as vezes apresenta-se com uma certa estrutura própria a cada profissão ou ambiente de trabalho. Isso porque, a vida psíquica perpassa pelo funcionamento de todo sistema corporal integrando-o, desta forma manifestam-se as doenças psicossomáticas.
O sofrimento que é vivenciado, mas não reconhecido, traz mais prejuízos para o sujeito, pois a função dos mecanismos de defesa é aliviar o sofrimento e isto finda em não permitir sua visibilidade tornado-o mais difícil de ser solucionado.
Contudo, há casos em que o trabalho é favorável ao equilíbrio mental e a saúde corporal, uma boa adequação entre a organização do trabalho e a estrutura mental do indivíduo é possível, para tanto é necessário que algumas condições, ou pelo menos uma delas, seja realizada. Estas consistem em que as exigências (intelectuais, motoras, psicossensoriais) da tarefa estejam de acordo com as necessidades do trabalhador, onde o exercício da tarefa proporcione prazer; outro aspecto diz respeito ao conteúdo do trabalho enquanto fonte de satisfação sublimatória (situação, diga-se de passagem, muito rara e só encontrada em situações privilegiadas) onde o trabalhador pode modificar a organização do seu trabalho de acordo com seus desejos e necessidades, ou seja, sendo o trabalhador responsável pelo conteúdo, ritmo de trabalho, modo operatório. Vale ressaltar que, essas características aqui mencionadas não eximem que, em algum momento, o trabalho não venha a apresentar um conteúdo de sofrimento, mas o prazer do trabalho permite uma melhor defesa e estruturação física e psíquica, pelo menos a priori (Dejours, 1992).
Os fatores, acima mencionados, não condizem com a maioria dos casos propiciados pelas relações de trabalho, isso porque a divisão crescente do trabalho (sistema Taylorista) compromete as possibilidades de realização pessoal diante da atividade laboral e diminui a escolha e a livre estruturação da tarefa. A organização do trabalho cada vez mais autoritária, rígida e parcelizante (Dejours, 1994) despersonaliza o trabalhador e abole da atividade de trabalho a identidade, o que impossibilita uma manifestação mais autêntica da subjetividade, destituindo o trabalho de significado pessoal.
É importante mencionar que o sofrimento, em alguns casos, se revela propício à produtividade; não propriamente o sofrimento, mas os mecanismos de defesa empreendidos pelo mesmo. Pois os mecanismos de defesa podem tornar o trabalhador mais cauteloso e atento na realização de sua atividade, em decorrência, por exemplo, do medo provocado por um trabalho que envolve risco; ou gerar uma atividade laborativa mais acelerada, devido, por exemplo, a um clima de ansiedade propiciado pelo receio de perder o emprego ou a posição ocupada na empresa; logo, tudo isso volta-se para a manutenção da produtividade organizacional. (Ibid).
A organização de trabalho exerce, sobre o homem, uma ação específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. (Dejours, 1994). Porém, a relação conflituosa entre a organização do trabalho e o aparelho mental é capaz, através de sua transformação e da dissolução dos mecanismos de defesa, de evoluir para um arrolamento mais benéfico entre saúde mental e trabalho.
O sofrimento psíquico surge no contexto do trabalho de forma bastante sutil. Muitos trabalhadores desconhecem e/ou nunca associam este tipo de sofrimento ao trabalho, apesar da clara evidência diagnosticada por meio de suas próprias falas características, comportamentos e sintomas por eles apresentados no cotidiano laboral. Para estabelecer uma relação analítica do sofrimento psíquico com o trabalhador, nos remetemos aos estudos de Freud (1929), onde encontramos ser o sofrimento uma ameaça constante para o homem, a partir de três fontes:

 Do próprio corpo, fatalmente condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e ansiedade como sinais de advertência;
 Do mundo externo, que pode se voltar contra nós mediante forças destrutivas, esmagadoras e impiedosas;
 Dos relacionamentos que se estabelece com os outros.
O sofrimento do trabalhador nasceria das elaborações edificadas nas relações de trabalho, a partir da organização (cultura) e de seus próprios pares(relações), no contexto da organização onde se exige que as atividades sejam realizadas, a partir do instante em que ela passa a oferecer ao trabalhador condições de trabalho suficientes para que o exercício do trabalho redunde em êxito. Quando tal não ocorre, a organização passa a cobrar, muitas vezes de forma hostil, o resultado não atingido pelo trabalhador. O trabalhador, por sua vez, acredita nesta “verdade” e passa a desenvolver uma relação de sofrimento consigo mesmo e com a organização, ao buscar aquele “algo mais” não encontrado nas condições normais de trabalho. Começa, então, a enxergar que a organização deseja, continuando a oferecer as mesmas condições, tidas como ideais, que ele as considere como suficientes para a realização do seu trabalho.
Assim, é afirmado por Freud (1929), que todo sofrimento nada mais é do que sensação, só existe na medida em que se sente e só sentimos em conseqüência de certos mecanismos pelos quais nosso organismo está regulado.
Com efeito, o trabalhador é regulado pela organização e seus pares, assim observa-se a realidade do sofrer, no corpo, na alma direcionando à fragilidade, ao adoecimento.
Christophe Dejours e a Psicodinâmica do Trabalho
De acordo com Ana Mendes & Carla Morrone (2002), a Psicodinâmica do trabalho foi sugerida por Dejours a partir dos anos 80 na França e foi consolidada nos anos 90 no Brasil. Médico do trabalho, psiquiatra e psicanalista, seus estudos revelam um olhar amplo e integrador sobre a organização do trabalho e seus impactos sobre a saúde mental dos trabalhadores. Tal olhar remete-se aos fenômenos do mundo laboral que influenciam, de maneira decisiva, as vivências de prazer e sofrimento dos indivíduos envolvidos com o processo dinâmico do trabalho. Em seu livro “Travail: Usure Mental”, lançado na França em 1980 e posteriormente traduzido e publicado no Brasil, com o título “A loucura do trabalho”, o objeto de estudo é, não a loucura propriamente dita, mas sim o sofrimento, sendo este um estado compatível com a normalidade psíquica do indivíduo, já que o mesmo proporciona uma série de mecanismos de defesa e de regulação.
Para Dejours (1994), o sofrimento presente no contexto organizacional se vincula a dados relativos a história singular de cada indivíduo e aos aspectos referentes à sua situação atual, possuindo então uma dimensão temporal que implica em processos construídos pelo próprio trabalhador no âmbito de sua atividade. O autor distingue dois tipos específicos de sofrimento, sendo o primeiro o patogênico e o segundo o criativo. O patogênico se inicia no momento em que foram explorados todos os recursos defensivos do indivíduo. Esse tipo de sofrimento é uma espécie de resíduo não compensado, que leva a uma destruição do equilíbrio psíquico do sujeito, empurrando-o para uma lenta e brutal destruição orgânica. No momento em que a organização do trabalho se torna autoritária, ocorre um bloqueio da energia pulsional, que se acumula no aparelho psíquico do indivíduo, gerando desta forma, sentimentos de tensão e desprazer intensos.

“A carga psíquica do trabalho resulta da confrontação do desejo do trabalhador, à injunção do empregador contida da organização do trabalho. Em geral a carga psíquica do trabalho aumenta quando a liberdade de organização do trabalho diminui”. (Dejours, 1994, p. 28)

Quanto ao segundo tipo, Dejours denomina de sofrimento criativo pelo fato de o indivíduo elaborar soluções originais que favorecem ou restituem sua saúde. O sofrimento criativo chega a adquirir um sentido, pois favorece ao indivíduo um reconhecimento de uma identidade. Neste contexto o indivíduo se propõe a ação criativa que promove descobertas, fazendo com que o este experimente e transforme, de maneira criativa, prática e astuciosa, soluções inéditas frente às situações móveis e cambiantes de seu trabalho. A competência e a astúcia, promovida pela inteligência coletiva ou individual, proporcionam o surgimento de estratégias defensivas, que aliviam ou combatem o sofrimento psíquico.

Transformando o sofrimento em vivências de prazer
Quando falamos de sofrimento dentro do ambiente de trabalho percebemos que ocorre uma identificação imediata deste termo por parte dos trabalhadores, porém quando nos referimos ao prazer as reações são adversas, alguns indivíduos acreditam se tratar de uma quimera, outros acham que o prazer não é compatível ao trabalho. Porém, o prazer se torna algo real e concreto no contexto do trabalho no momento em que o trabalhador mobiliza todos os recursos subjetivos e objetivos / materiais no sentido de realizar uma operação simbólica, isto é, quando o sujeito procura resgatar o sentido do trabalho para si.
De acordo com Mendes & Morrone (2002), este sentido resgatado depende da interrelação entre subjetividade do indivíduo que trabalha, do saber fazer e do coletivo de trabalho. No que diz respeito à subjetividade, esta envolve a história de vida e a estrutura psíquica deste sujeito, já o saber fazer se refere a um tipo de capacidade que ajuda o trabalhador a regular e a sobreviver ao que está prescrito pela organização na qual está inserido, adquirindo com a prática uma maneira peculiar e imaginativa para realizar o seu trabalho de maneira correta. Quando falamos de coletivo de trabalho nos referimos às bases e regras, que organizam as relações entre as pessoas dentro do espaço organizacional, tais regras se constituem não apenas da técnica, elas também possuem uma dimensão ética, onde o sujeito tem uma noção do que é justo ou injusto, estando essas normas e esquemas de regulação mais no âmbito dos valores, julgamentos da estética e da qualidade do trabalho. Os julgamentos se encontram em dois pares distintos de hierarquia, onde o primeiro se refere à conformidade do trabalho, ou seja, a maneira como ele deve se conduzir de acordo com as normas da empresa e segundo à originalidade particular de cada indivíduo, sua singularidade e personalização, oferecendo desta forma meios para construção de uma identidade construída pelo coletivo do trabalho.
A constatação da existência de estratégias defensivas dentro do ambiente de trabalho, sendo estas de caráter positivo, revela-se o aspecto multifacetário da interrelação homem / trabalho, fazendo com que se agregue uma nova textura e plasticidade ao ambiente. Entretanto, esclarece-se que este fenômeno real e concreto está mascarado de tal forma que se torna quase impossível vê-lo sem que se esteja munido de uma percepção aguçada do universo observado.
Quando se considera a possibilidade de transgredir regras, não se está anunciando um caos propriamente dito dentro das organizações, mas sim, que o trabalhador está transgredindo ao tempo linear rígido e rotineiro, criando momentos lúdicos, significativos por meio de sua necessidade de criatividade. O tempo alternativo ou transgressor nada mais é do que um tempo para si, resgatado nas pequenas fugas de uma rotina massacrante.
De acordo com Aguirre Baztán (1993), os momentos de ruptura eqüivalem ao momento no qual o sujeito vivência o caos simbólico, como forma de destruição do tempo velho e de criação de um tempo novo. Tais rupturas proporcionam aos indivíduos uma ocasião de inverter todos os valores, de destruir a temporalidade monótona e de transgredir ao instituído. Porém esta transgressão é uma forma de criar um novo espaço-tempo, de gerar um caos para estabelecer uma ordem. Para Baztán (op. cit), com tal ruptura, vivencia-se uma circularidade do tempo, uma maneira de colocar um fim em algo, para assim criar um novo começo, com uma nova percepção de tempo e plenos de uma nova energia.
Os benefícios são sentidos tanto na mente, com o aumento do poder da criação, da liberdade e do sentido existencial do trabalho, quanto no corpo servindo de excelente estratégia de defesa contra os elementos agressivos do ambiente institucional, favorecendo aos sujeitos vivências de prazer no trabalho.
Para Bruhs (op. cit), o prazer real e permanente que o indivíduo pode sentir é a tranqüilidade de realizar ações significativas para si e não ir além de suas possibilidades físicas e mentais.
Sobre o ambiente laboral, (...)quando o rearranjo da organização do trabalho não é mais possível, quando a relação do trabalhador com a organização do trabalho é bloqueada, o sofrimento começa: a energia pulsional que não acha descarga no exercício do trabalho se acumula no aparelho psíquico, ocasionando um sentimento de desprazer e tensão”(DEJOURS, 1992). Assim o trabalho é pertinente ao homem e necessita de uma resignificação a fim de ser melhor usufruído como um jogo, cheio de ludicidade e criação em prol da produtividade no trabalho e de sua satisfação existencial.

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O PERCURSO DO STRESS: SUAS ETAPAS
Marilda Emmanuel Novaes Lipp
O que é stress?
Stress é uma reação do organismo que ocorre quando ele precisa lidar com situações que exijam um grande esforço emocional para serem superadas. Quanto mais a situação durar ou quanto mais grave ela for, mais estressada a pessoa pode ficar. Porém há meios de se aprender a lidar com o stress de modo que mesmo nos piores momentos o organismo não entre em colapso.
Que sintomas o stress pode criar?
O stress se desenvolve em quatro estágios. Inicialmente a pessoa entra no processo de stress pelo estágio de alerta. Esta é a fase boa do stress, onde produzimos adrenalina e ficamos cheios de energia e de vigor, prontos para, se necessário, varar a noite ou despender grande quantidade de energia se tivermos que lidar com uma emergência.
Durante esta fase, podemos também sentir tensão ou dor muscular, azia, problemas de pele, irritabilidade sem causa aparente, nervosismo, sensibilidade excessiva, ansiedade e inquietação. Caso o que nos causa stress desapareça, saímos do processo de stress sem seqüelas. Porém, se o estressor continua ou se algo mais acontece para nos desafiar, podemos entrar no estágio de resistência, que significa a etapa em que tentamos resistir ao stress. Nesta fase, dois sintomas mais importantes surgem: dificuldades com a memória e muito cansaço. Se nosso esforço for suficiente para lidar com a situação, o stress é eliminado e saímos do processo de stress.
O problema maior começa a ocorrer quando não conseguimos resistir ou nos adaptar e nosso organismo começa a sofrer um colapso gradual. Entramos na fase de quase-exaustão, onde podem surgir os problemas mencionados a seguir.
Sintomas da fase de quase-exaustão do stress
• Cansaço mental;
• Dificuldade de concentração;
• Perda de memória imediata;
• Apatia ou indiferença emocional;
• Impotência sexual ou perda da vontade de ter sexo;
• Herpes;
• Corrimentos;
• Infecções ginecológicas;
• Aumento de prolactina;
• Tumores;
• Problemas de pele
• Queda de cabelo;
• Gastrite ou úlcera;
• Perda ou ganho de peso;
• Desânimo, apatia ou questionamento frente a vida;
• Autodúvidas;
• Ansiedade;
• Crises de pânico;
• Pressão alta;
• Alteração dos níveis de colesterol e triglicérides;
• Distúrbios de menstruação;
• Queda na qualidade de vida.

Dificuldades relatadas por pessoas que se encontravam em cada fase do stress
Fase de Alerta:
• SONO: Dificuldade em dormir muito acentuada devido à adrenalina.
• SEXO: Libido (vontade de ter sexo) alta. Muita energia. O sexo ajuda a relaxar.
• TRABALHO: Grande produtividade e criatividade. Pode varar a noite sem dificuldade.
• CORPO: Tenso. Músculos retesados. No inicio da fase, aparece a taquicardia (coração disparado). Sudorese. Sem fome e sem sono. Mandíbula tensa. Respiração mais ofegante do que o normal. No todo, o organismo reage em uma perfeita união entre mente e corpo. A tensão do corpo encontra correspondência na mente.
• HUMOR: Eufórico. Pode ter grande irritabilidade devido à tensão física e mental experimentada.
Fase de Resistência:
• SONO: Normalizado.
• SEXO: Libido (vontade de ter sexo) começa a baixar. Pouca energia. O sexo não apresenta interesse.
• TRABALHO: A produtividade e a criatividade voltam ao usual, mas às vezes não consegue ter novas idéias.
• CORPO: Cansado, mesmo tendo dormido bem. O esforço de resistir ao stress se manifesta em uma certa sensação de cansaço. A memória começa a falhar. Mesmo não estando com alguma doença, o organismo se sente “doente”.
• HUMOR: Cansado. Só se preocupa com a fonte de seu stress. Repete o mesmo assunto e se torna tedioso.
Fase de Quase-exaustão:
• SONO: Insônia. Acorda muito cedo e não consegue voltar a dormir.
• SEXO: Libido (vontade de ter sexo) quase desaparece. A energia para o sexo está sendo usada na luta contra o stress e a pessoa perde o interesse.
• TRABALHO: A produtividade e a criatividade caem dramaticamente. Consegue somente dar conta da rotina, mas não cria e nem tem idéias originais.
• CORPO: Cansado. Uma sensação de desgaste aparece. A memória é muito afetada e a pessoa esquece fatos corriqueiros, até mesmo seu próprio telefone. Doenças começam a surgir. As mulheres apresentam dificuldades na área ginecológica. Todo o organismo se sente mal. Ansiedade passa a ser sentida quase que todo dia.
• HUMOR: A vida começa a perder o brilho. Não acha graça nas coisas. Não quer socializar. Não sente vontade de aceitar convites ou de convidar. Considera tudo muito sem graça e as pessoas tediosas.
Fase de Exaustão:
• SONO: Dorme pouco. Acorda cedíssimo e não se sente envigorado pelo sono.
• SEXO: Libido (vontade de ter sexo) desaparece quase que completamente.
• TRABALHO: Não consegue mais trabalhar como normalmente. Não produz. Não consegue se concentrar e nem decidir.O trabalho perde o interesse.
• CORPO: Desgastado e cansado. Doenças graves podem ocorrer, como depressão, úlceras, pressão alta, diabetes, enfarte, psoríase etc. Não há mais como resistir ao stress. A batalha foi perdida. A pessoa necessita de ajuda médica e psicológica para se recuperar. Em casos mais graves, pode ocorrer a morte.
• HUMOR: Não socializa. Foge dos amigos. Não vai a festas. Perde o senso de humor. Fica apático. Muitas pessoas têm vontade de morrer.

Stress negativo e positivo: existe stress ideal?
Stress negativo: é o stress em excesso. Ocorre quando a pessoa ultrapassa seus limites e esgota sua capacidade de adaptação. O organismo fica destituído de nutrientes e a energia mental fica reduzida. A produtividade e a capacidade de trabalho ficam muito prejudicadas. A qualidade de vida sofre danos. Posteriormente a pessoa pode vir a adoecer.
Stress positivo: é o stress em sua fase inicial, a do alerta. O organismo produz adrenalina que dá animo, vigor e energia fazendo a pessoa produzir mais e ser mais criativa. Ela pode passar por períodos em que dormir e descansar passa a não ter tanta importância. É a fase da produtividade, como se a pessoa estivesse "de alerta". Ninguém consegue ficar em alerta por muito tempo, pois o stress se transforma em excessivo quando dura demais.
Stress ideal: é quando a pessoa aprende o manejo do stress e gerencia a fase de alerta de modo eficiente, alternando entre estar em alerta e sair de alerta. Para quem aprende a fazer isto, o "céu é o limite". O organismo precisa entrar em equilíbrio após uma permanência em alerta para que se recupere. Após a recuperação, não há dano em entrar de novo em alerta. Se não há um período de recuperação, então doenças começam a ocorrer, pois o organismo se exaure e o stress fica excessivo. O stress pode se tornar excessivo porque o evento estressor é forte demais ou porque se prolonga por tempo muito longo.


Síndrome de Burnout
A chamada Síndrome de Burnout é definida por alguns autores como uma das conseqüências mais marcantes do estresse profissional, e se caracteriza por exaustão emocional, avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade com relação a quase tudo e todos (até como defesa emocional).
O termo Burnout é uma composição de burn=queima e out=exterior, sugerindo assim que a pessoa com esse tipo de estresse consome-se física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço.
Essa síndrome se refere a um tipo de estresse ocupacional e institucional com predileção para profissionais que mantêm uma relação constante e direta com outras pessoas, principalmente quando esta atividade é considerada de ajuda (médicos, enfermeiros, professores).
Outros autores, entretanto, julgam a Síndrome de Burnout algo diferente do estresse genérico. Para nós, de modo geral, vamos considerar esse quadro de apatia extrema e desinteresse, não como sinônimo de algum tipo de estresse, mas como uma de suas conseqüências bastante sérias.
De fato, esta síndrome foi observada, originalmente, em profissões predominantemente relacionadas a um contacto interpessoal mais exigente, tais como médicos, psicanalistas, carcereiros, assistentes sociais, comerciários, professores, atendentes públicos, enfermeiros, funcionários de departamento pessoal, telemarketing e bombeiros. Hoje, entretanto, as observações já se estendem a todos profissionais que interagem de forma ativa com pessoas, que cuidam e/ou solucionam problemas de outras pessoas, que obedecem técnicas e métodos mais exigentes, fazendo parte de organizações de trabalho submetidas à avaliações.
Definida como uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto, excessivo e estressante com o trabalho, essa doença faz com que a pessoa perca a maior parte do interesse em sua relação com o trabalho, de forma que as coisas deixam de ter importância e qualquer esforço pessoal passa a parecer inútil.
Entre os fatores aparentemente associados ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout está a pouca autonomia no desempenho profissional, problemas de relacionamento com as chefias, problemas de relacionamento com colegas ou clientes, conflito entre trabalho e família, sentimento de desqualificação e falta de cooperação da equipe.
Os autores que defendem a Síndrome de Burnout como sendo diferente do estresse, alegam que esta doença envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, clientes, organização e trabalho, enquanto o estresse apareceria mais como um esgotamento pessoal com interferência na vida do sujeito e não necessariamente na sua relação com o trabalho. Entretanto, pessoalmente, julgamos que essa Síndrome de Burnout seria a conseqüência mais depressiva do estresse desencadeado pelo trabalho
Os sintomas básicos dessa síndrome seriam, inicialmente, uma exaustão emocional onde a pessoa sente que não pode mais dar nada de si mesma. Em seguida desenvolve sentimentos e atitudes muito negativas, como por exemplo, um certo cinismo na relação com as pessoas do seu trabalho e aparente insensibilidade afetiva.
Finalmente o paciente manifesta sentimentos de falta de realização pessoal no trabalho, afetando sobremaneira a eficiência e habilidade para realização de tarefas e de adequar-se à organização.
Esta síndrome é o resultado do estresse emocional incrementado na interação com outras pessoas. Algo diferente do estresse genérico, a Síndrome de Burnout geralmente incorpora sentimentos de fracasso. Seus principais indicadores são: cansaço emocional, despersonalização e falta de realização pessoal.

Quadro Clínico
O quadro clínico da Síndrome de Burnout costuma obedecer a seguinte sintomatologia:
1. Esgotamento emocional, com diminuição e perda de recursos emocionais
2. Despersonalização ou desumanização, que consiste no desenvolvimento de atitudes negativas, de insensibilidade ou de cinismo para com outras pessoas no trabalho ou no serviço prestado.
3. Sintomas físicos de estresse, tais como cansaço e mal estar geral.
4. Manifestações emocionais do tipo: falta de realização pessoal, tendências a avaliar o próprio trabalho de forma negativa, vivências de insuficiência profissional, sentimentos de vazio, esgotamento, fracasso, impotência, baixa autoestima.
5. É freqüente irritabilidade, inquietude, dificuldade para a concentração, baixa tolerância à frustração, comportamento paranóides e/ou agressivos para com os clientes, companheiros e para com a própria família.
6. Manifestações físicas: Como qualquer tipo de estresse, a Síndrome de Burnout pode resultar em Transtornos Psicossomáticos. Estes, normalmente se referem à fadiga crônica, freqüentes dores de cabeça, problemas com o sono, úlceras digestivas, hipertensão arterial, taquiarritmias, e outras desordens gastrintestinais, perda de peso, dores musculares e de coluna, alergias, etc.
7. Manifestações comportamentais: probabilidade de condutas aditivas e evitativas, consumo aumentado de café, álcool, fármacos e drogas ilegais, absenteísmo, baixo rendimento pessoal, distanciamento afetivo dos clientes e companheiros como forma de proteção do ego, aborrecimento constante, atitude cínica, impaciência e irritabilidade, sentimento de onipotência, desorientação, incapacidade de concentração, sentimentos depressivos, freqüentes conflitos interpessoais no ambiente de trabalho e dentro da própria família.
Apesar de não ser possível estabelecer uma fórmula mágica ou regra para análise do estresse no trabalho devido a grande diversidade entre as empresas, vejamos agora algumas situações mais comumente relacionadas ao estresse no trabalho, de um modo geral.
Considera-se a Síndrome Burnout como provável responsável pela desmotivação que sofrem os profissionais da saúde atualmente. Isso sugere a possibilidade de que esta síndrome esteja implicada nas elevadas taxas de absenteísmo ocupacional que apresentam esses profissionais.
Segundo pesquisas (Martínez), a epidemiologia da Síndrome de Burnout tem aspectos bastante curiosos. Seu detalhado trabalho mostrou que os primeiros anos da carreira profissional profissional seriam mais vulneráveis ao desenvolvimento da síndrome.
Há uma preponderância do transtorno nas mulheres, possivelmente devido à dupla carga de trabalho que concilia a prática profissional e a tarefa familiar. Com relação ao estado civil, tem-se associado a síndrome mais com as pessoas sem parceiro estável.

Ballone GJ - Síndrome de Burnout - in. PsiqWeb Psiquiatria Geral, Internet, última revisão, 2002 - disponível em http://www.psiqweb.med.br/cursos/stress4.html




O que é assédio moral?
Assédio moral ou Violência moral no trabalho não é um fenômeno novo. Pode-se dizer que ele é tão antigo quanto o trabalho.
A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do fenômeno e na abordagem que tenta estabelecer o nexo-causal com a organização do trabalho e tratá-lo como não inerente ao trabalho. A reflexão e o debate sobre o tema são recentes no Brasil, tendo ganhado força após a divulgação da pesquisa brasileira realizada por Dra. Margarida Barreto. Tema da sua dissertação de Mestrado em Psicologia Social, foi defendida em 22 de maio de 2000 na PUC/ SP, sob o título "Uma jornada de humilhações".
A primeira matéria sobre a pesquisa brasileira saiu na Folha de São Paulo, no dia 25 de novembro de 2000, na coluna de Mônica Bérgamo. Desde então o tema tem tido presença constante nos jornais, revistas, rádio e televisão, em todo país. O assunto vem sendo discutido amplamente pela sociedade, em particular no movimento sindical e no âmbito do legislativo.
Em agosto do mesmo ano, foi publicado no Brasil o livro de Marie France Hirigoyen "Harcèlement Moral: la violence perverse au quotidien". O livro foi traduzido pela Editora Bertrand Brasil, com o título Assédio moral: a violência perversa no cotidiano.
Atualmente existem mais de 80 projetos de lei em diferentes municípios do país. Vários projetos já foram aprovados e, entre eles, destacamos: São Paulo, Natal, Guarulhos, Iracemápolis, Bauru, Jaboticabal, Cascavel, Sidrolândia, Reserva do Iguaçu, Guararema, Campinas, entre outros. No âmbito estadual, o Rio de Janeiro, que, desde maio de 2002, condena esta prática. Existem projetos em tramitação nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Bahia, entre outros. No âmbito federal, há propostas de alteração do Código Penal e outros projetos de lei.
O que é humilhação?
Conceito: É um sentimento de ser ofendido/a, menosprezado/a, rebaixado/a, inferiorizado/a, submetido/a, vexado/a, constrangido/a e ultrajado/a pelo outro/a. É sentir-se um ninguém, sem valor, inútil. Magoado/a, revoltado/a, perturbado/a, mortificado/a, traído/a, envergonhado/a, indignado/a e com raiva. A humilhação causa dor, tristeza e sofrimento.
E o que é assédio moral no trabalho?
É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego.
Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o 'pacto da tolerância e do silêncio' no coletivo, enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, 'perdendo' sua auto-estima.
O desabrochar do individualismo reafirma o perfil do 'novo' trabalhador: 'autônomo, flexível', capaz, competitivo, criativo, agressivo, qualificado e empregável. Estas habilidades o qualificam para a demanda do mercado que procura a excelência e saúde perfeita. Estar 'apto' significa responsabilizar os trabalhadores pela formação/qualificação e culpabilizá-los pelo desemprego, aumento da pobreza urbana e miséria, desfocando a realidade e impondo aos trabalhadores um sofrimento perverso.
A humilhação repetitiva e de longa duração interfere na vida do trabalhador e trabalhadora de modo direto, comprometendo sua identidade, dignidade e relações afetivas e sociais, ocasionando graves danos à saúde física e mental*, que podem evoluir para a incapacidade laborativa, desemprego ou mesmo a morte, constituindo um risco invisível, porém concreto, nas relações e condições de trabalho.
A violência moral no trabalho constitui um fenômeno internacional segundo levantamento recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) com diversos paises desenvolvidos. A pesquisa aponta para distúrbios da saúde mental relacionado com as condições de trabalho em países como Finlândia, Alemanha, Reino Unido, Polônia e Estados Unidos. As perspectivas são sombrias para as duas próximas décadas, pois segundo a OIT e Organização Mundial da Saúde, estas serão as décadas do 'mal estar na globalização", onde predominará depressões, angustias e outros danos psíquicos, relacionados com as novas políticas de gestão na organização de trabalho e que estão vinculadas as políticas neoliberais. (*) ver texto da OIT sobre o assunto no link:
http://www.ilo.org/public/spanish/bureau/inf/pr/2000/37.htm
Fonte: Barreto, M. Uma Jornada de Humilhações. 2000 PUC/SP

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