Educação Indígena
Por Patrícia Segura*
Palestra com um índio: João Lira¹
A idéia central da palestra do educador indígena João Lira, havida em 30 de maio último, permitiu aos alunos um confronto com os conteúdos teóricos extraídos dos textos históricos, com a realidade vivenciada pelo palestrante junto as diferentes tribos com que ele teve oportunidade de conviver.
O enfoque central é a educação indígena do Vale do Ribeira, principalmente trazendo como forma de esclarecimento aos alunos, dois mundos que parecem tão distintos, mas que se integram por sua identidade.
A noção da metodologia aplicada na educação indígena estabelece um parâmetro muito grande quando, por surpresa dos alunos, o índio idealizado no imaginário popular continua vivo nas histórias infantis, mas longe, muito longe da cultura riquíssima e ainda enigmática que nossos acadêmicos precisam e devem compartilhar.
A Antropofagia, a nudez característica representada nas imagens idealizadas e materializadas ao longo da história é estática nos livros, mas ganha vida nos relatos apresentados por João, demonstrando que muros, barreiras, preconceitos e a própria ignorância, sustentáculos desse muro, estão em processo de demolição, pois é missão de nossos acadêmicos a multiplicação de fatos reais.
Enquanto nos deliciamos com nosso obsessivo egocentrismo de detentores dos saberes de um polivalente e nos valemos de temas transversais (quando isso acontece), os conteúdos atitudinais são práticas essenciais à preservação da cultura indígena.
Longe da mediocridade docente de nossa época que dicotomicamente verbaliza sua indignação contra o bulling e na prática (interiorizada), porque o que se exterioriza não é que se pensa ou se sente, a cultura indígena ganha forças. Afinal, é de sua história, de sua cultura que se aprende o respeito pelos mais velhos, pelos ditos “diferentes”, a solidariedade, onde todos são iguais e se ajudam sempre, e que estas noções não precisam ser garantidas em forma de leis, mas o processo de liderança instituída também na questão cultural se faz pela ação do cacique, do pajé (líder espiritual) e a sabedoria repassada não é questionada pelos demais, nem tampouco se estagna no tempo.
Segundo João, o Pajé e o professor têm quase a mesma importância dentro da aldeia, consideradas as vantagens atribuídas ao pajé pelo respeito às questões espirituais a este atribuídas. Dado de extrema relevância, visto que em nossa sociedade, qual o papel do professor? Em que momento histórico sua importância passou a invisibilidade?
Deixamos aqui o seguinte questionamento: Quem evoluiu mais? A sociedade do homem branco “sociedade envolvente” ou àqueles que nos deram origem, embora, de boca cheia, temos o desprazer de ouvir muitos alunos e professores falarem de suas descendências européias e sobrenomes tradicionais. Onde está a cultura herdada deste sangue azul?
Cultura e Educação os fatores que João, em sua simplicidade mostrou a todos nós naquela privilegiada noite.
Ah! Mais uma lição a aprender: simplicidade no meio de tamanho conhecimento. Isso é real.
* Patrícia Salvador Segura é Professora, Diretora e Coordenadora na FISA - Faculdade Iguapense Santo Augusto
¹ Professor João Lira, membro da sociedade indígena Guarani Aldeia Uruity e Diretor de Escola Indígena no município de Iguape/SP. Conheça seu trabalho em http://guaraniuruity.wordpress.com/
Ola,gostei muito do relatorio escrito bem nitida.
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