O texto na Literatura Infantil contemporânea
Objetivos do encontro: Perspectiva da autora; Despertar para habilidades literárias; Explicar Técnicas de redação – da enumeração à textura; Produção de texto.
A perspectiva de Ana Maria Machado sobre Literatura Infantil
“Gosto muito de inventar coisas. Por isso, não sou boa contadeira de histórias. Fico misturando as coisas que aconteceram com as inventadas.
E quando começo a conversar vou lembrando de outros assuntos, e misturando mais ainda. Fica uma história grande e principal toda cheia de historinhas pequenas penduradas nela.
E quando começo a conversar vou lembrando de outros assuntos, e misturando mais ainda. Fica uma história grande e principal toda cheia de historinhas pequenas penduradas nela.
Tem gente que gosta, acha divertido. Tem gente que só quer saber de histórias muito exatas e muito bem arrumadinhas _ então é melhor mudar de história, pois esta aqui é meio atrapalhada mesmo e toda ao contrário.” (Machado, A. M. História meio ao contrário. 3. ed. São Paulo: Ática, 1981)
Um dos propósitos da leitura é satisfazer a necessidade de conhecer e construir a nossa própria identidade. Ler é caminhar num bosque exuberante captando uma nova impressão em cada folhagem. No processo de leitura entra em atividade os sentidos do corpo para a criação do imaginário e a movimentação das idéias; objetiva-se o contato e participa do mundo.
Para compreender a questão da perda, de abandonos, de esquecimentos, a literatura infantil vai além de sua dimensão estética e se propõe, com ela, a superação de realidades dolorosas e dos medos instintivos, tais como:traições, temores, infidelidades, rejeição, vingança, injustiça etc. A proposta é mediar a vida do leitor, para que ele alcance sua identidade, traçando um paralelo entre o mundo imaginário e o real, através do encantamento, pela magia, visando o ideal de felicidade.
As características abaixo apresentam-se como marcas pós-modernas e estão presentes na obra infantil de Ana Maria Machado:
Seqüência narrativa – procura-se propor problemas a serem solucionados de maneiras diferentes, muitas vezes co-participativamente, do que apresentas respostas prontas.
Personagens – emergem as individualidades que se incorporam no grupo-personagem, com tendência a valorização de grupos, patotas, a personagem-coletiva. Surge o espírito comunitário e a individualidade do herói está pouco presente. As soluções apresentadas durante a enfabulação dependem da colaboração de todos. Identifica-se, por vezes, uma individualidade não integrada no grupo. Nesse caso, presencifica-se a personagem questionadora que põe em xeque as estruturas prontas, um convite à reflexão.
Voz narradora – mostra-se mais consciente da presença de um leitor possível, num tom mais familiar e até de diálogo. Não cabe mais tratar o leitor como receptor da mensagem, pois não há passividade. A perspectiva é de interlocutor, em tempos de valorização da análise do discurso e da pragmática.
Ato de contar – crescente valorização da linguagem e todos os processos a ela relacionados. São freqüentes as abordagens metalingüísticas, com histórias falando de si mesmas e de seu fazer-se.
Espaço – pode ser um simples pano de fundo para personagens ou participante da dinâmica da ação narrativa. Percebe-se uma preocupação crescente em mostrar as relações existentes nesse espaço, a fim de conduzir à reflexão.
Nacionalismo – busca das origens para definir a brasilidade em suas multiplicidades culturais, com identificação não só sul-americana como africana. Delimitar uma nova maneira de ser no mundo, a brasileira.
Exemplaridade – deixa de ser usada somente com intenção pedagógica e passa a revelar a ambigüidade natural do ser humano, sem maniqueísmos. Tende a ser uma maneira de propor problemas a serem resolvidos e estimular a optar conscientemente nos momentos de agir.
Das técnicas de redação – da enumeração à textura.
A enumeração segue o lugar comum de listar os assuntos, mas parte do cotidiano das crianças. A ponte entre o mundo adulto e seus conflitos, a ponte entre a fantasia – o imaginário – e a realidade da criança, sem perder de vistas os valores que se procura cultivar junto aos pequenos; entre eles, o respeito às diferentes culturas, às diferentes pessoas e individualidades, na busca pela ética de respeito mútuo e construção do bem em sociedade.
A estrutura narrativa tem as funções de introduzir, retomar, relacionar acontecimentos, diálogos e personagens. Na literatura infantil, os mais freqüentes desses termos, chamados de “operadores”, são: Mas, e, e aí, e então, então. Tais termos funcionam como um “gancho” que mantém a progressão da narrativa ou seja:
Mudança de condição da narrativa; Adição; Progressão temporal; Causa/efeito; Ênfase; Conclusão/finalização.
Exemplo do texto infantil, produzido pela criança:
“Era uma vez um cão aí no mesmo instante um coelho ladrão viu cenouras e foi roubar aí o cão viu e latiu aí o dono correu, correu e aí o coelho passou a cerca...”
Entretanto, na construção da literatura infantil, apesar da economia da estrutura (frases curtas) e dos operadores da linguagem oral infantil seguirem ao texto reconstruído, na ESCRITA do texto ao público infantil busca-se apreciar as regras de pontuação para que a criança estabeleça a PONTE entre a oralidade e a produção textual com respeito à estrutura gramatical.
Uma reconstrução de Ana Maria Machado
"Um dia o menino estava distraído, meio longe de casa, e pisou num galho seco que estalou. Aí o lobinho, que também estava por ali, distraído, meio longe de casa, ouviu o estalo, se assustou e bufou. Então os dois se viraram e se olharam. De repente. Frente a frente. Aí cada um ...”
Atividade do dia:
Reconstrução do texto oral da criança (o de exemplo ou outro) para a literatura infantil, considerando as regras de construção do texto infantil e à gramática, e a preservação dos operadores.
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